Prevenir violências contra crianças e adolescentes é uma tarefa que precisa estar no centro da construção de um país mais seguro
Se as crianças participassem das decisões políticas, as cidades seriam bem diferentes. As ruas teriam nomes de dinossauros e fadas em vez de ditadores; os carros ocupariam menos espaço, haveria mais lugares para brincar e as calçadas teriam amarelinhas desenhadas. Mas como seria a segurança pública imaginada por elas? Talvez fosse uma segurança que não pensasse apenas em responder à violência, mas também em evitar que ela acontecesse, permitindo uma infância e adolescência com dignidade.
Os dados mostram o tamanho desse desafio. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2026), entre 2021 e 2025, os registros de maus-tratos contra crianças e adolescentes cresceram 106,1%, chegando a 38.986 casos em 2025. Também foram registrados 21.811 casos de lesão corporal no contexto de violência doméstica. Crianças de até 13 anos representam 60,3% das vítimas de estupro de vulneráveis. Por trás desses números, há uma realidade que exige mais do que respostas depois que o dano já aconteceu.
Uma política de segurança pública comprometida com a proteção de crianças e adolescentes precisa também olhar para os fatores que favorecem a violência e agir antes que ela aconteça ou se agrave. Isso significa reconhecer que prevenir não é deixar de investigar crimes ou responsabilizar seus autores. Ao contrário: prevenção, proteção, investigação e responsabilização fazem parte de uma mesma estratégia de enfrentamento da violência.
A prevenção exige políticas baseadas em evidências e ações coordenadas. Não existe uma única medida capaz de enfrentar todas as formas de violência contra crianças e adolescentes. É preciso fortalecer leis; enfrentar normas e valores que naturalizam a violência; construir ambientes seguros; apoiar mães, pais e cuidadores; ampliar oportunidades econômicas; garantir acesso à educação e assegurar serviços capazes de identificar riscos, proteger vítimas e interromper violações. Essas estratégias estão reunidas no INSPIRE, referência internacional baseada em evidências para a prevenção e a resposta às violências contra crianças e adolescentes.
A proteção acontece nos territórios e depende de uma rede que envolva diferentes políticas e instituições. Municípios têm papel fundamental na construção de redes locais de proteção. Escolas podem promover relações não violentas e identificar sinais de risco. Saúde e assistência social precisam reconhecer e responder às diferentes formas de violência. E as instituições de segurança e justiça devem atuar para prevenir, interromper, investigar e responsabilizar
Essa agenda não pode ser responsabilidade exclusiva da segurança pública. A proteção acontece nos territórios e depende de uma rede que envolva diferentes políticas e instituições. Municípios têm papel fundamental na construção de redes locais de proteção. Escolas podem promover relações não violentas e identificar sinais de risco. Saúde e assistência social precisam reconhecer e responder às diferentes formas de violência. E as instituições de segurança e justiça devem atuar para prevenir, interromper, investigar e responsabilizar.
Também é preciso fortalecer a capacidade do Estado de enxergar o problema. Quando os diagnósticos se concentram apenas nas mortes violentas e nos registros policiais, parte significativa das violências contra crianças e adolescentes permanece invisível ou fragmentada. Prevenir exige integrar informações de segurança pública, saúde, educação, assistência social e justiça, monitorar resultados e aprimorar políticas. E exige, sobretudo, ouvir crianças e adolescentes na construção das respostas que dizem respeito às suas próprias vidas.
Essa perspectiva também precisa considerar que meninas e meninos não estão expostos aos mesmos riscos. Desde cedo, meninas são afetadas por violências atravessadas pelas desigualdades de gênero. Raça, deficiência, gênero, classe e território podem produzir diferentes situações de risco e diferentes barreiras de acesso à proteção. A prevenção precisa reconhecer essas especificidades e enfrentar as normas e comportamentos que naturalizam a violência e a discriminação.
Nada disso diminui os desafios tradicionais da segurança pública. O Brasil precisa reduzir a violência letal, enfrentar organizações criminosas, controlar a circulação de armas, fortalecer as instituições e garantir investigação e responsabilização. Mas também precisa olhar para o que acontece antes. Prevenir a violência desde a infância significa construir ambientes mais seguros, interromper ciclos de violência e evitar que violações se reproduzam.
Segurança de verdade exige resposta quando a violência acontece, mas também capacidade de evitar que ela aconteça. Para crianças e adolescentes, essa não pode ser uma agenda secundária ou de curto prazo. Precisa estar nos planos de governo e nas políticas públicas como parte de uma estratégia permanente de proteção e prevenção. Talvez uma cidade pensada pelas crianças nos ensinasse justamente isso: segurança não é apenas ter alguém para chegar depois que algo acontece. É construir, antes, as condições para que menos coisas ruins aconteçam.
Danielle Tsuchida é coordenadora de projetos do Instituto Sou da Paz.
Lucas José Ramos Lopes é secretário executivo da Coalizão Brasileira pelo Fim da Violência contra Crianças e Adolescentes.
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