28/03/2018

O que aconteceu ontem no Paraná foi um ato terrorista. Não usemos eufemismos, assim seria chamado em qualquer país civilizado. Foi, também, uma manifestação da emergência do fascismo que, desde o golpe, está cada vez mais empoderado, orgulhoso do seu ódio e violento.

A caravana de Lula foi atacada a tiros. Em qualquer democracia saudável, isso teria sido repudiado sem justificativas por todos, seria a capa dos jornais de hoje e teria provocado uma reação unânime da sociedade. Mas nesse Brasil anestesiado, houve até um pré-candidato que justificou a barbárie. Geraldo Alckmin disse que os petistas “estão colhendo o que plantaram”.

Não foi o boçal, mas o candidato da direita que se diz “liberal” e “de centro”. Em qualquer país normal, um candidato que justificasse tiros contra a caravana do seu adversário se derrubaria nas pesquisas e seria afastado pelo próprio partido. Mas Alckmin não é inexperiente ou burro, fez isso para disputar eleitores de Bolsonaro, mostrando que ele também pode representar os odiadores. É um sintoma da gravidade da crise política e moral do país. Perdemos a capacidade de perceber o absurdo e o naturalizamos. Mas isso não começou ontem.

Em 2016, quando uma presidenta eleita foi derrubada, nosso país deu o primeiro passo em direção a um regime autoritário. Aceitamos como se fosse normal que os partidos que perderam as últimas quatro eleições presidenciais chegassem ao governo junto a um vice-presidente traidor, para implementar o programa vencido nas urnas. E a degradação democrática foi se aprofundando cada dia mais.

Como uma democracia de fachada precisaria de novas eleições esse ano, os golpistas precisam impedir o Lula de concorrer, porque ele ganha. Foi assim que um setor do Judiciário usou o processo absurdo do triplex, para enquadrá-lo na Lei da Ficha Limpa. E, mais uma vez, naturalizamos isso. Em breve podemos ter um dos principais líderes políticos do país preso – um preso político – e uma eleição presidencial fraudulenta, sem o candidato que venceria. Mas será que vai ter mesmo? Hoje, o Blog do Noblat noticia conversas reservadas com um ministro “muito próximo do presidente” que diz que talvez não tenha eleições em 2018. Vamos naturalizar isso também?

É nesse contexto que precisamos entender o que ocorreu no Paraná. Vários parlamentares, eu inclusive, recebemos ameaças de morte. Uma vereadora do meu partido foi assassinada a tiros. Agora atiraram contra a caravana do Lula. Não estou dizendo que todos esses atos tenham um mesmo mandante, nem acho, mas eles fazem parte de um mesmo processo político. O fascismo é hoje um cão raivoso que está solto. Aliás, são centenas, cada um deles com seus próprios ódios e fora de controle.

O que mais precisa acontecer? Como é possível que, diante de um ato de terrorismo contra um ex-presidente, as capas dos principais jornais falem de qualquer outra coisa? Como é possível que políticos e jornalistas tentem culpar Lula e o PT pelas balas contra eles, tentando transformar as vítimas em culpados, porque parece que nesse país tudo é culpa do Lula! É inacreditável que depois de um atentado a tiros, parte da imprensa e da política queira desviar a atenção do fascismo que ajudou a crescer e culpar quem recebeu as balas.

O antipetismo e o macarthismo foram um cavalo de Tróia usado pelos plutocratas do PSDB, pelos traidores da base do governo petista, por setores da grande mídia, do empresariado e do mercado financeiro, e pela casta do Judiciário, para derrubar um governo eleito e garantir mais facilmente as medidas econômicas neoliberais e antipopulares e os privilégios do andar de cima em tempos de crise econômica e “ajuste”. E esse discurso de ódio precisava do apoio dos grupelhos fascistas, dos odiadores patológicos, das bravatas de Bolsonaro e de algumas sub-celebridades caricatas, que os golpistas acharam que poderiam controlar. Ninguém pode. A história do século XX tem exemplos disso. O ovo da serpente quebrou. E agora que o fascismo ceifou brutalmente uma vida — e até ela foi difamada depois de morta — e disparou tiros contra uma caravana política, os golpistas, que não conseguiram até agora emplacar um nome que os represente, estão perdendo o voto antipetista para o candidato fascista. E, desesperados, já falam até em cancelar as eleições.

Diante desse cenário de terror, a esquerda e os setores democráticos, de forma ampla, sem sectarismo, precisam se unir. A decisão de Manuela D’Ávila e Guilherme Boulos, pré-candidatos à presidência pelo PCdoB e pelo PSOL, de participar hoje de um ato unitário junto a Lula em Curitiba, contra o fascismo e sua violência, é um passo importante e correto. Enfrentamos circunstâncias excepcionais e precisamos de medidas excepcionais.

Uma frente ampla antifascista se faz necessária!

Fonte: Midia Ninja